26 Maio, 2008

 

 

  Quando aquele casal decidiu, apesar de todas as imensas dificuldades, ficarem juntos, não imaginavam o que vinha pela frente.

 

  Ele, um homem de quase 40 anos, 1.88 m, pele alva, lindos olhos verdes, sereno, daquelas pessoas que conseguem acalmar o mundo com um simples olhar. Ela, quase uma menina, não fosse o fato de já ser mãe e de estar totalmente envolvida numa história que somente começava a ser escrita. Ele era muito culto, um dos filhos de um italiano muito bravo e tradicional que se instalara no Sul de Minas Gerais. Ela era uma das filhas de um oleiro do Sul de Minas Gerais, sem estudo, apenas força de trabalho e uma revolta muito grande com tudo, mas isso era um detalhe perto dos lindos olhos negros, pareciam jabuticabas, as madeixas negras, levemente cacheadas, a pouca estatura dava um charme delicado, destacando as belas penas torneadas. Ela tirava aquele grande homem de seu caminho, desde a primeira vez que ele a viu.

 

  E foi nessa época, depois de tantas dificuldades e com mais outras tantas por vir, que ele estava fora de São Paulo, pois ainda não tinha recebido a autorização de Roma para largar a batina, sendo assim continuava a rezar missas, em Latim, e sua família quase sempre não podia acompanhá-lo. Deixou sua esposa grávida e sua filha aos cuidados de sua irmã. Passava dias e noites com muitas saudades e sempre a espera de notícias.

 

  Em 15 de novembro de 1947 seu telefone tocou, era sua cunhada, alegre como sempre, a pessoa mais alegre e otimista que todos que a conheceram puderam ter por perto. Ela trazia boas notícias, seu filho havia nascido!  

 

  Esse era um grande momento para ele, aquele homem maduro, muito bonito e cheio de experiências grandiosas, estava feliz, muito feliz, seu primeiro filho homem havia nascido, estava saudável e levaria além do sobrenome da família, a união dos nomes dos pais. Seria ele que eternizaria a bela e sofrida história daquele casal.

 

  Esse filho sempre foi muito amado e foi ele que o pai escolheu para acompanhá-lo nos longos períodos longe de casa, foi a ele que aquele grande homem passou toda sua sabedoria e motivou para que fosse um grande homem e um grande pai, foi esse filho que herdou as grandes qualidades daquele pai.

 

  Durante toda a vida, esse filho se espelhou naquelas tardes em Barretos ao lado de seu pai, se tornou o melhor amigo daquele pai e sua grande esperança de que tudo podia dar certo!

 

  Em 1972 o filho virou pai e pôde sentir toda a felicidade que seu pai sentiu, a partir daí passou àquela criança todos os grandes ensinamentos que seu pai lhe passou  e fez questão que aquele grande homem que tudo lhe ensinara fizesse parte da vida daquela nova criança.

 

  Em 1976 o filho foi pai mais uma vez e Deus presenteou o novo filho com os olhos do avô. Mais uma vez a presença daquele grande homem em todos os momentos na vida do filho foram essenciais para que ele enfrentasse todos os dilemas que vivia e viria a viver.

 

  Em 1983 a primeira filha faria primeira comunhão e foi ao avô que recorreu para saber mais sobre religião, ela era muito apegada aos avós paternos, era o ‘xodó’ dos dois, a única que podia beber água no copo dele e que recebia todo o carinho e amor que possa imaginar. A cena dela sentada, nas longas pernas do avô, aprendendo a rezar o “Credo” foi tão linda, mas infelizmente foi o último contato físico dos dois. Logo após ele foi internado e ela se lembra de usar o anel que ele lhe deu, a única jóia que havia dado a sua avó, no dia da Primeira Eucaristia e de pensar nele o tempo todo, mas ele não estava presente. Neste mesmo mês o filho foi pai mais uma vez e nascia um menino que mais tarde revelaria vários dons iguais ao do avô, que o conheceu apenas por foto, a qual benzeu como um padre e o abençoou.

 

  Era um domingo de sol, Dia dos Pais, agosto de 1983 e aquele grande homem partia, deixava o filho desnorteado, os netos, os outros filhos, a esposa, os poucos amigos, os irmãos. Um símbolo de bondade e luta, de fé permanente em Deus, estava indo para o céu.

 

  Das coisas que deixou para todos os que o amavam, a principal é o filho, aquele que nasceu em 15 de novembro de 1947, aquele que herdou as melhores coisas do pai e em segundo lugar a sabedoria, o conhecimento e o amor a Deus!

 

  O filho é um grande pai e um grande homem. Ele é alicerce. É um grande amigo que surpreende a cada dia com a palavra sempre certa para todos os momentos, ele acompanha, ele auxilia e direciona, curte todos os momentos e se alegra com a felicidade de todos.

 

  Aquele casal viveu para ver a grande obra que fizeram e mesmo sem a oportunidade de planejar muito, acertaram. Lá de cima eles olham e têm a certeza da missão cumprida!

 

Ao meu pai, lindo, incrível, amigo, companheiro, conselheiro, um exemplo de pessoa.

 

Com amor.

 

Sheila Rolemberg Carozzi Aguiar Garcia

 

 

 

 

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