Desculpe-me por não esquecê-la
2 Maio, 2008
Era apenas mais uma segunda feira chuvosa, um daqueles dias em que tudo fica pintado de cinza e a umidade parece penetrar no seu interior.
Jhonny, assim era chamado desde a época da Civil, estava com 46 anos, e amargava naquele apartamento na Avenida Rio Branco, São Paulo, aguardando o resultado do inquérito enviado a Corregedoria. Ele tinha como companhia o barulho intenso de ônibus, pessoas andando livremente pelas calçadas e as lembranças de um passado negro e recente.
Ele acordou as 6:00 h e, num susto, pulou da cama. Ouviu uma multidão falando, pegou sua arma e se colocou em posição de ataque. Assim acontecia quase toda a manhã, quando não as madrugadas, sempre suando muito e sedento por ação. Jhonny era um torturador aplicado e durante toda a ditadura usou suas técnicas repugnantes para “ajudar” o regime a banir àqueles que julgavam subversivos ou como costumavam chamar “comunas de merda”. Mas aquele tempo estava acabando e uma denúncia de um estudante que conseguiu sobreviver aos seus abusos estava deixando-o paralisado e aguardando, assim como ele fazia nos porões da ditadura, a espera pela “justiça”.
Jhonny lava o rosto na pia branca, quase laranja por causa da ferrugem dos canos, sente o gosto de ferro na sua boca e sente-se enjoado. Sua cabeça andava confusa. O tempo se misturava e todos os acontecimentos se mesclavam, o presente com o passado, sem futuro. Ele se imagina com o cano na boca, assim como fez para tantos, lava o rosto novamente e a sensação passa. Senta-se no vaso e começa a ler a notícia no jornal sobre o Rock in Rio e sua indignação ao ver que alguns exilados tocariam se expurgaram em forma de fezes, e uma dor repentina faz com que ele sinta como se estivesse recebendo aquelas fezes de volta, adentrando como um cano e sentiu algo parecido com mordida, fechou os olhos e viu como se um rato roesse seu ânus, abriu os olhos e soltou um grito! Levantou-se, nem se limpou, correu para o chuveiro, mas o chão molhado o fez escorregar. Seu corpo magro bateu no chão e ele estava estarrecido, se perguntava o porque daquelas coisas acontecerem com ele. Abriu o chuveiro de foi deixando a água cair, como se fosse possível limpar aquela sujeirada toda. De repente sentiu seu corpo tremer e um choque elétrico paralisou seu corpo todo, gritou novamente e tentou sair do chuveiro, mas sem sucesso caiu sentado e começou a chorar.
Naquele momento, uma consciência tardia tocou seu coração, lembrou de 21 de Setembro de 1977, dia em que saiu num veraneio e atacou toda e qualquer pessoa “suspeita” na USP, tomou o controle da universidade e prendeu, entre outros, Lídia, bela moça de curvas inigualáveis demonstradas na roupa branca, cabelos lisos e óculos pretos que lhe davam um charme sem fim. Sentado naquele azulejo azul, frio e sujo de limo, começou a lembrar do fascínio que ela lhe causou. Neste momento ele viu aquela cena de resistência dela à prisão, e dele falando aos outros policiais que a deixassem com ele. Algemada ela foi levada ao carro, partiram para o Dops, ela não via nada, pois estava com um capuz preto que impedia reconhecer o local. Ao chegarem, a algazarra dos outros policiais era imensa, parecia uma festa, estavam ansiosos para tomar conta dos presos, mas Jhonny levou Lídia a terceira cela, entrou junto com ela e fechou a porta.
O interrogatório começou e Lídia não dava as respostas que ele esperava, aquilo foi deixando-o num estado misto de ódio e excitação, pois, ao mesmo tempo em que queria acreditar que ela não tinha nenhuma ligação com a UNE, ele tinha que torturá-la e conseguir respostas. Começou a dar safanões e tapas nela, e aquele choro desesperado, aquela voz doce dizendo que era apenas uma estudante de medicina, que vinha de uma família de classe média e que sua vida era mergulhar em livros, não o convencia. Ele arrancou o capuz da cabeça dela, coisa não usual na época, e o cheiro de seu perfume invadiu a cela, olhou nos olhos negros, redondos e brilhantes como uma jabuticaba, e gritou para que ela falasse a verdade, mas ela continuou a dizer as mesmas coisas. A ira tomou conta dele e começou a ameaçá-la com a arma em sua boca, têmporas e nuca. Ela, já sangrando de tanta porrada, se jogou ajoelhada no chão e implorou que ele acreditasse nela, mas foi em vão. Puxou-a pelos cabelos e juntou o corpo dela no seu, começou a morder sua orelha, pescoço e lábios, sentiu a excitação e puxou com força sua camisa, deixando os botões caírem no chão e vendo os seios dela num sutien branco no meio da escuridão. Estuprou-a, de todos as formas e maneiras, possuiu aquela moça que chorava baixinho, quando acabou e olhou-a novamente, viu a dor que sentia em seus olhos, foi invadido por uma culpa tão grande que perdeu o controle. Saiu da cela se arrumando e deixou-a ali, sozinha, seminua, no chão frio, chorando.
Perambulou de um lado para o outro e decidiu tirá-la dali, conversou com superiores e voltou à cela. Uma atmosfera sádica caiu sobre o lugar e ele a levantou, arrumou e a levou de volta a Veraneio, sozinho com ela. Seu companheiro foi atrás dele, em vão, já tinha arrancado com o carro. Ele estava decidido a matá-la, mas antes tomaria aquele corpo novamente, pensava que já que a merda estava feita, melhor aproveitar-se dela. Parou próximo a um terreno baldio e tirou do carro, neste momento ela nem falava mais, parecia que sabia seu fim. Ele arrancou-lhe toda a roupa e matou cada pedaço seu aos poucos, estuprando-a novamente e dilacerando qualquer dignidade dela, sem medo e sem dó. Quando terminou olhou para ela e sorriu, ela cuspiu no rosto dele, ele atirou, um tiro medroso, na tentativa de apagar seu erro, achou que foi no coração e saiu correndo para o carro, deu partida e foi de volta ao DOPS. Chegando lá só balançou a cabeça sinalizando um “sim” ao superior e continuou sua rotina de tortura
Essa lembrança veio como um filme para ele, tremia de frio e pensou o porque de sempre se lembrar de Lídia, foram tantos os presos e torturados por ele, tantos que sofreram choques na cadeira do dragão, ficaram apanhando o pau de arara, levaram porradas, ficaram de castigo com os pés em latas, mas porque sempre a Lídia, da qual ele lembrava o nome e o olhar, ouvia o choro, por que?
Jhonny conseguiu se levantar e fechar o chuveiro, colocou uma roupa velha e surrada, no melhor estilo policial civil, – Jeans com camisa social de manga curta e direito a correntes de ouro e relógio se exibindo – arma nas costas, tentou se livrar das lembranças. Desceu as escadas deparando-se com alguns grupinhos de conversa fiada, teve uma vontade enorme de enquadrar todo mundo, mas continuou descendo. Passou pela entrada do prédio, cego pela claridade cinza da rua, e desceu os três degraus alcançando a calçada. Caminhou até a esquina, viu um homem barbudo parado olhando para o outro lado avenida, como se esperasse alguém, achou suspeito, mas continuou a caminhar até o estacionamento. Pegou sua CB e saiu andando pela cidade, sem destino. Parou num bar onde encontrou outros policiais, um boteco velho com balcão cor de abóbora e cara de sujo, pediu ao Dorival – dono do boteco que tinha sorriso aberto, gostava de puxar papo e carregava um pano imundo no ombro combinando com os poucos cabelos oleosos, – uma cerveja gelada. Bateu papo furado com os colegas e tomou a cerveja, pagou e saiu. Subiu na moto e quando percebeu, estava parando em frente aquele lugar que foi um terreno baldio, o lugar que matou Lídia. Desceu da moto e deixou-a ali, caminhou entre os barracos, pois o lugar estava se tornando aos poucos uma favela, e parou, exatamente onde tudo aconteceu. Ficou ali, parado e em silêncio, o mundo girou em sua cabeça em forma de tontura, fechou e abriu os olhos rapidamente, deparou-se com o som de uma voz suave e feminina que perguntou:
- O senhor está bem?
Olhou e no meio de seu astigmatismo viu uma bela mulher de branco, com uma maleta – branca que destacava uma cruz vermelha – na mão e um estetoscópio no pescoço. Desmaiou.
Quando acordou estava numa maca e sendo levado à ambulância, a mulher entrou junto, sentou-se e segurou sua mão com força. Ele perguntou o que estava acontecendo e ela disse para que ficasse tranqüilo, pois seria levado ao hospital e faria alguns exames. Ele queria levantar e sair, mas não tinha forças. Ela olhou fixamente em seus olhos e se apresentou dizendo em tom sarcástico:
- Sou médica, vou cuidar muito bem de você, meu nome é Lídia.
Sheila Garcia
UAU!!! EU ADOREI E TAMBÉM ME EMOCIONEI COM ESSE CONTO!
OS ANOS DE CHUMBO REALMENTE FORAM DRAMÁTICOS! VOCÊ TERIA OUTROS CONTOS SOBRE ESSA ÉPOCA?! UM GRANDE ABRAÇO!!!