Teoria do Espelho

14 Abril, 2008

A rotina de todos os dias me consumia rapidamente no vai-vem da escova de dente. Sai de casa com os cabelos ainda por pentear. E entrei no velho companheiro de todos os dias.

 

Meu carro.

 

Já no primeiro semáforo, percebi que alguém mais havia saído junto comigo, olhei ao lado e achei uma figura um tanto quanto bizarra. A mulher, mais descabelada que eu mesma esmurrava o volante enquanto pressionava freneticamente seu aparelho de celular. Aquilo mais parecia um interrogatório de inquisição à qual o pobre telefone, já podíamos adivinhar não tinha culpa alguma.

 

O carro arrancou e eu fiquei ali, tomada por alguns segundos a imaginar o que estaria acontecendo. Engatei a primeira marcha com um pouco de dificuldade e segui meu caminho.

 

No próximo farol, qual não é a minha surpresa? Lá está ela, roçando os velhos cabelos com uma escova gasta pelo tempo e pelo uso. Fingi que não olhava, afinal, a qualquer momento ela poderia descobrir sua perseguidora e ir também à desforra comigo, em um exemplo clássico da teoria de substituição idealizada pelo próprio S. Freud. Isso mesmo, eu agora perseguia aquela mulher e nada mais faria tanto sentido em minha manhã quanto fazer isso.

 

A cada arrancada, freada e buzinada, lá estava eu, incólume ao seu lado e observando todos os seus trejeitos e manias. Acabei por descobrir que ela usa a mesma cor de batom, e até um adereço nos cabelos parecido com o meu. Era curioso o modo como aquela situação me fascinava e me afastava das tarefas diárias pré-concebidas no início do meu dia.

 

Num certo momento o trânsito se complicou, característica comum da metrópole. E na monotonia incansável da primeira e segunda marcha, me afastava daquela figura apressada e insana. De repente estava lado a lado com ela e aquelas atitudes de nervosismo, intolerância e impaciência me deixavam cada vez mais curiosa, o que podia deixar alguém chegar a esse estado antes das 9:00 horas da manhã? Seria uma noite mal dormida ou um emprego daqueles ruins de engolir? Ou seria uma reunião em que não poderia se atrasar? Tantos foram os motivos que cheguei a pensar que não haveria motivo algum, somente alguém que nasceu predestinada a ter um enfarto no meio do tráfego e virar notícia.

 

No meio daqueles acontecimentos alheios, mas tão interessantes, toca meu celular, como que um convite para que eu também começasse meu dia. Do outro lado da linha um cliente enfurecido, daqueles que, infelizmente, não eram raros. Ouvi atentamente seu regurgitar e me limitei a alguns “aham” , finalizei com um “estou a caminho do escritório” e tentei dizer que ligaria de lá, mas não deu tempo, me consolo foi o “tum, tum, tum” , normalmente a última frase de meu clientes.

 

Foi nesse momento de distração que olhei para o lado e ela continuava lá, mais enfurecida que antes.  Percebi que estávamos próximas a um lugar ermo e avistei dois garotos com pedras na mão, prontos para atacar, foi quando olhei atentamente para minha nova amiga e vi sua imagem se despedaçar completamente em um misto de som imagens arrepiantes. Logo começou a correria: Os meninos para cima do morro e o caminhoneiro lamentando a destruição de sua frágil encomenda. Alguém sentiria falta daquele espelho. Eu também.

 

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Sheila e Luís Garcia